Vinaora Nivo SliderVinaora Nivo Slider

Consequências na saúde física e psicológica

O assédio sexual tem diversos tipos de consequências sociais, morais, económicas e de saúde, para as vítimas, para todas as mulheres e demais pessoas que não encaixam na masculinidade hegemónica e para a sociedade em geral.

Uma das consequências consiste na naturalização da violência contra as mulheres (sobretudo, mas também outras pessoas diferentes), coarctando desde muito cedo, os seus movimentos e liberdades, construindo um caldo de cultura para a violência e a discriminação de género.

Consiste em mais um dos mecanismos da sociedade patriarcal para invisibilizar e aniquilar simbolicamente (quando não é também literalmente) as mulheres, objectificando-as como apenas-corpo, objecto de desejo da masculinidade hegemónica.

Uma outra consequência muito importante consiste na socialização para a naturalização da violência com claras implicações sobretudo nas gerações mais jovens, tanto nas meninas como nos meninos, criando condições para a sua reprodução social.

Todavia, muito graves são as consequências para a vítima, variando em função do grau de exposição, da duração e da gravidade dos comportamentos. Existem muitas semelhanças entre as consequências da vitimização pela violência de género nas relações de intimidade e a violência por assédio sexual. O sentimento de constrangimento e humilhação, a auto-culpabilização, o medo de retaliação e o consequente silêncio são aspectos comuns do quadro de consequências de ambos os tipos de violência.

As graves consequências para a saúde psicológica das vítimas exigem uma atenção especial por parte dos poderes públicos e da sociedade civil - stresse, diminuição do desempenho, consequências nas relações interpessoais, na família e no trabalho. Sharyn Ann Lenhart enfatiza as "significativas disrupções na vida de trabalho e nas relações pessoais das pessoas vitimizadas" (2004, p. 101). Ansiedade, medo, insónias, dores de cabeça, diminuição das capacidades cognitivas, depressão, são algumas consequências de que as vítimas podem sofrer, sobretudo se o assédio for prolongado no tempo.

Temos ainda que fazer sobressair um aspecto importante nestas consequências que diz respeito ao facto de que vão somar às consequências da discriminação. Assim, mulheres que não encaixam no estereótipo da feminilidade moralmente aceite numa determinada sociedade podem ser, além de alvos mais frequentes dos ataques masculinos, sujeitas a uma revitimização por parte da comunidade em geral — lésbicas, mulheres imigrantes, negras, actrizes, trabalhadores/as da indústria do sexo. Aqui, a perspectiva da vitimização secundária (blaiming the victim) constitui-se como fator agravante das consequências psicológicas e de saúde para as vítimas.

Assim, embora o assédio sexual se apresente em formas muito diversificadas, como afirma Sharyn Ann Lenhart (1), "as mulheres que transcendem os papéis tradicionais do apoio e do cuidar, tanto no espaço do trabalho como noutros espaços, e desafiam a autoridade masculina têm maior probabilidade de se tornarem conscientes do assédio sexual e da discriminação de género" (2004, p. 12).

São muitas as reações físicas e psíquicas às situações de assédio. Podem incluir, nas reacções físicas, náuseas, diarreia, dor de pescoço, dor nas costas, alterações do pulso, dores de cabeça ou mesmo enxaquecas, problemas gastro-intestinais, perturbação do sono, tiques, espasmos musculares, fadiga, dispepsia, aumento da transpiração, frio nos pés e nas mãos, perda de apetite ou compulsão alimentar (perda de peso ou ganho de peso), diminuição da líbido, aumento de problemas respiratórios e infecções do trato urinário, recorrências de doenças crónicas, úlceras, síndrome do intestino irritável, eczema e urticária. Nas reacções psicológicas, podemos salientar: a tristeza persistente e /ou crises de choro persistente, diminuição da auto-estima, irritabilidade, ansiedade, medo de perda de controle, oscilações de humor, vergonha, impulsividade, auto-culpabilização, fantasias de fuga, raiva e medo, pensamentos compulsivos, medos obsessivos, insegurança e autoconfiança diminuída, diminuição da concentração e outras competências cognitivas, sentimentos de humilhação, de impotência, vulnerabilidade e alienação. Alguns dos transtornos psiquiátricos relatados incluem transtornos de ansiedade, estresse pós-traumático, distúrbios do sono, distúrbios de disfunção sexual, distúrbios de dissociação, somatização, depressão, abuso de substâncias psicoativas, problemas de adaptação.

Maria José Magalhães
"Assédio Sexual: Um problema de direitos humanos das mulheres"
In Ana Isabel Sani (coord.) (2011). Temas de vitimologia: realidades emergentes na vitimação e
resposta sociais
, pp. 101-113, Coimbra: Almedina.

Comboio de financiamento